Uma comunicação que transforma a vida. O jovem católico nas mídias sociais

Entre os dias 18 e 20 de maio foi realizado no Brasil, na cidade de Brasília, o Seminário Nacional de Jovens Comunicadores, promovido pelas comissões episcopais para Juventude e para Comunicação da Conferencia Nacional dos Bispos dos Brasil (CNBB). O evento contou com média de 200 participantes vindos de diversas regiões do país e trouxe o tema geral: Jovens Católicos: Comunicação que transforma vidas. O encontro teve como objetivo trabalhar a formação dos jovens profissionais de comunicação na perspectiva da preparação da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que será realizada em julho de 2013.

Este é o texto que eu preparei para a minha primeira palestra sobre as tansformações que as mídias sociais realizam na nossa vida em um nível profundo. A tradução em português é de João Paulo Miranda, a quem agradeço

ESQUEMA:

A rede é um ambiente que muda a…

  1. Capacidade de existir
  2. Capacidade de procurar a Deus
  3. Capacidade de escutar
  4. Capacidade de doar
  5. Capacidade de testemunhar
  6. Capacidade de pensar junto
  7. Capacidade de estar junto

A rede é um ambiente

A internet é uma realidade que agora faz parte da vida cotidiana. Se até pouco tempo a Rede era ligada à imagem de algo ‘frio’, técnico, que requeria competências específicas, hoje é um lugar a se frequentar para estar em contato com os amigos que moram longe, para ler notícias, para comprar um livro ou marcar uma viagem, para compartilhar interesses e ideias. E isto também em movimento graças a aqueles que já se chamaram ‘celulares’ e que hoje são verdadeiros computadores de bolso.

E a internet não é um instrumento, mas um ambiente, um espaço de experiência que cada vez mais está se tornando parte integrante, de maneira fluída, da vida quotidiana: um novo contexto existencial. Não, portanto, um ‘lugar’ específico dentro do qual se entra em alguns momentos para viver online, e do qual se sai para reentrar na vida offline.

A Rede, ao alcance da mão, começa a ter efeito sobre a capacidade de viver e pensar. Da sua influência depende de qualquer modo a percepção que temos de nós mesmos, dos outros e do mundo que nos circunda e daquilo que ainda não conhecemos. Na verdade, o homem sempre tentou entender a realidade através da tecnologia. Pensemos como a fotografia e o cinema mudaram o modo de representar as coisas e os eventos; o avião nos fez compreender o mundo de um modo diferente do carro com rodas; a imprensa nos fez compreender a cultura de maneira diversa. E assim por diante.

A ‘tecnologia’, portanto, não é a soma de objetos modernos e de vanguarda. É parte do agir com o qual o homem exercita sua própria capacidade de conhecimento, de liberdade e de responsabilidade. O fiel sabe ver na tecnologia a resposta do homem ao chamado de Deus a dar forma e transformar a criação. E o fiel também hoje compreende que a Rede não é um ‘meio’ de evangelização! É contudo um ‘lugar’ de evangelização, um ambiente no qual se é a si mesmo até o fim, um lugar onde a fé vira vida. O verdadeiro desafio da Igreja é viver a Rede como um espaço de experiência. O nosso objetivo não deve ser aquele de ‘usar bem a Rede’, mas sim ‘viver bem os tempos da Rede’.

Como fazer, então, para se viver bem os tempos da Rede? Para entender melhor, devemos verificar quais são as transformações que as mídias sociais realizam na nossa vida em um nível profundo.

1.  Capacidade de existir

A primeira transformação consistem no próprio significado de o que significa existir. Quem somos nós quando estamos e nos comunicamos na Rede? A nossa existência em Rede é independente da nossa presença física, mas oferece uma forma, às vezes também vívida, de presença social. A nossa vida está ali, nas fotos e nos pensamentos que compartilhamos, ali estão os nossos amigos. Nós, de certo modo, ‘somos’ em Rede, parte da nossa vida é lá. Essa, certamente, não é um simples produto da consciência, uma imagem da mente, mas não é também uma realidade objetiva ordinária, porque também existe só quando interajo. Tenhamos conciência contudo que nós existimos também em Rede. Uma parte da nossa vida é digital. Portanto, também uma parte da nossa fé é digital, vive no ambiente digital.

Um estudante meu africano da Pontifícia Universidade Gregoriana uma vez me disse: “amo o meu computador porque dentro do meu computador estão todos os meus amigos”. É verdade: dentro do seu computador tem Facebook, Skype, Twitter… todos modos para ele estar em contato com seus amigos distantes. A sua ‘comunidade’ de referência era real graças à Rede.

Vejam, ainda hoje se pensa e se fala das ‘novas mídias’, se pensa como um novo meio que se soma aos outros: primeiro a imprensa, depois a fotografia, depois o cinema, depois o rádio, depois a televisão, depois ‘internet’… Como se tivéssemos descoberto um outro planeta em órbita ao Sol depois de Plutão. Não é assim. Estamos diante de algo diferente.

O mundo digital não é somente um “planeta a mais” e as tecnologias digitais nos fizeram descobrir, para continuar na metáfora, que o sistema solar faz parte de uma galáxia… que faz parte de um amontoado de galáxias. Estamos descobrindo um território novo. Entrando nisso nós mudamos porque – e explicarei melhor pela tarde – a tecnologia é expressão da espiritualidade do homem.

Começamos então a perguntarmos… Quais outras transformações as mídias digitais e sociais realizam na nossa vida como fiéis?

2. Capacidade de procurar a Deus

Começo com aquela que me parece ser a mais radical e talvez a menos visível, ao menos na aparência. É a capacidade do homem de procurar e encontrar a Deus.

Vejam, certa vez o homem era certamente atraído ao mundo religioso como a uma fonte de sentido fundamental. Como a agulha de uma bússola, ele sabia estar radicalmente atraído a uma direção precisa, única e natural: o Norte. Se a bússola não indica o Norte é porque não funciona, e não porque não existe Norte. Deus era o Norte.

Depois, o homem começou a usar o radar que serve para revelar e determinar a posição de objetos fixos ou móveis. O radar vai a procura de seu target e implica uma abertura indiscriminada também ao mais brando dos sinais, não a indicação de uma direção precisa. E assim também o homem começou a procurar um sentido para a vida e também um Deus capaz de um sentido de reconhecimento, que faça sentir a sua voz. A expressão dessa lógica é a pergunta: ‘Deus, onde estás?’. O homem era entendido como a procura de Deus, de uma mensagem da qual sentia uma necessidade profunda. E hoje? Ainda vale essa imagem?

Não muito. À bússola hoje substituiu o smartphone. A imagem que é mais presente hoje é aquela do homem que se sente perdido se o seu celular não tem sinal ou se seu computador ou tablet não pode acessar a alguma forma de conexão de rede wireless.

Se uma vez era o radar a procura de um sinal, hoje, ao invés, estamos nós a procurar um canal de acesso através do qual os dados podem passar. É a lógica introduzida pelo sistema push: quando um email é disponível, eu o recebo de maneira automática porque tenho aberto um canal de recebimento.

O homem hoje não procura sinais, mas quer estar sempre e constantemente na possibilidade de recebê-los sem procurar. Logo, em outras palavras: vive-se sem fazer tantas perguntas. Se Deus existe, far-se-á vivo de qualquer modo. Por isso hoje ninguém mais é ateu de maneira radical.

O homem que primeiro tinha a bússola e depois o radar está se transformando, pois, em um decoder, ou seja, um sistema de acesso e decodificação das perguntas baseadas nas múltiplas respostas que lhe dão sem que ele se preocupe de ir procurá-las. Vivemos bombardeados pelas mensagens, sofremos uma sobre-informação, a dita information overload. O problema hoje não é repelir a mensagem de sinal, mas de codifica-la, ou seja, reconhece-la como importante para mim, significativa diante das múltiplas respostas que recebo.

Então é importante hoje não tanto dar respostas. Todos dão respostas! Hoje o importante é reconhecer as perguntas importantes, aquelas fundamentais. E assim fazer de modo que a nossa vida permaneça aberta, que Deus possa ainda falar a nós.

A grande palavra a redescobrir, desse modo, é uma velha conhecida do vocabulário cristão: o discernimento. O discernimento espiritual significa reconhecer entre tantas respostas que hoje recebemos quais são as perguntas importantes, aquelas verdadeiramente fundamentais. É um trabalho complexo, que requer uma grande preparação e uma grande sensibilidade espiritual.

3. Capacidade de escutar

Uma forma singular de information overload é ligada à música. É realmente ligada à música a transformação que o contexto comunicativo atual nos está fazendo viver. Em particular essa é ligada ao iPod e aos outros leitores de música digital. Muitos de nós, passeamos escutando música.

Hoje não se escuta mais qualquer coisa: escuta-se música. Colocam-se os fones de ouvido e se deixa sair a música. Especialmente, escuta-se de modo misturado e casual, isto é, no shuffle. E este é o nome de um tipo em particular de iPod que permite escutar as músicas sem uma ordem pré-definida. Esse modo de escuta cada vez mais nos acostuma quotidianamente a viver uma escuta casual. De fato, frequentemente o iPod é carregado com tantas músicas das quais nem sempre se conhecer o título ou o autor.

O iPod shuffle contém o VoiceOver que, caso apertado durante a escuta de uma música que lhe goste, revela o título e o autor. Como se pode notar, torna-se aqui a lógica do decoder. Desse modo: não se procura uma certa passagem musical: se escuta e depois, caso algo chame nossa atenção, ativamos o decodificador. A mesma coisa acontece com aplicativos como o Shazam: escuta-se, caso nos agrade algo procuramos saber de qual canção se trata.

Obviamente, podemos perguntar-nos se esse hábito de escuta digital não pode também contribuir à perda de contato com a realidade ordinária, e não leva a desenvolver um isolamento acústico que impede aquelas simples e banais ocasiões de diálogo e escuta da vida diária.

Usar fones de ouvido é um modo para mudar a relação com o ambiente que nos circunda mediante a inserção de uma ‘trilha sonora’, que às vezes engrandece a rotina, mas certamente introduz um modo diferente de viver uma importante dimensão da vida: a escuta.

E a escuta tem a ver diretamente com a fé porque ‘a fé nasce da escuta e a escuta vem da palavra de Cristo’ (Rm 10, 17), como lemos na Carta aos Romanos. A escuta é o cardeal da fé desde o convite “Escuta, Israel” (Dt 6,4). Aqui Deus se revela como aquele que procura uma relação profunda com o homem, uma relação que toca o coração, a mente e as forças.

Logo, no tempo das comunicações digitais, o iPod, modificando o modo de se escutar, pode modificar a escuta da própria fé. A escuta não é mais, principalmente, uma atividade, mas o começo de uma trilha sonora de tudo aquilo que fazemos. Não se ‘escuta’ mais: fazem-se coisas e o nosso fazer assume a música como ‘fundo’.

O gesto de pegar um disco, ligar o toca disco, colocar a agulha em seu lugar, e todos os gestos que caracterizaram a escuta musical no passado deram lugar ao gesto simplíssimo de apertar um botão, também sem a necessidade de estabelecer que coisa escutar. Desse modo, a escuta não é mais uma ação de ‘obediência’ (ob-audire), mas um ‘acompanhamento’ que dá emoção às coisas que fazemos.

Resumindo: a escuta cria um ambiente maior que comunicar uma mensagem! Em particular o modo misturado, shuffle, cada vez mais nos acostuma quotidianamente a viver uma escuta casual de valor ambíguo:

– de uma parte abole a vontade: escuto aquilo que recebo, não aquilo que quero ou escolho

– de outra parte o gosto pelo inesperado ou a combinação do inesperado.

Eis então a pergunta: como escutar a Deus no tempo da escuta ambiental e misturada?

● Ocorre obviamente resistir à surdez generalizada por uma mensagem que requer uma escuta específica e com atenção,

● Mas certamente a fé tem de lidar com habilidades de escuta que não fornece, de fato, ‘tempo de escuta’ específicos, mas uma escuta generalizada, mais capaz de acompanhar a vida do homem que chamá-lo a uma atenção específica

Duas consequências então:

1. O jovem católico está aprendendo a escutar o evangelho como trilha sonora da vida e não só como uma mensagem específica e direta.

2. A palavra de Deus é chamada a se tornar ‘ambiente’, quem sabe graças à forma de oração de onde tiram as suas forças para sua vida quotidiana.

4. Capacidade de doar

Uma terceira transformação muito importante se relaciona com a nossa capacidade de doar. A Rede é o lugar da doação. Conceitos como file sharing, free software, open source, creative commons, user generated content, social network têm todos no seu interior, ainda que de modo diferente, o conceito de ‘doação’. Mas de qual tipo de doação estamos falando?

Aqui a ‘doação’ assume a forma do ‘grátis’. Não leva ao dar e receber, mas a tomar e permitir que outros tomem. Logo, é o próprio conceito de doação que hoje está mudando.

De fato, mais que doação pessoal de um ‘você’ a um ‘você’, hoje estamos nos habituando a uma ‘doação generalizada’. A lógica da doação em Rede parece ser substancialmente ligada a aquilo que na gíria é chamado de freebie, ou seja, qualquer coisa que não tem preço no sentido de não ter custos. Essa está baseada sobre a pergunta implícita: quanto custa? E a óptica é toda movida sobre quem ‘toma’ (e, logo, não ‘recebe’). O freebie é algo (em Rede é geralmente um programa, ou um conteúdo digital) que se pode pegar livremente. Uma outra versão de troca que segue essa lógica é aquela ligada ao freemium que consiste em qualquer coisa que se pode pegar ou ‘baixar’.

A doação no sentido cristão, ao contrário, não se ‘toma’ mas se ‘recebe’, e entra sempre em relação com de fora, o qual não se compreende. A doação cria ‘laços’, é uma lógica de comunhão. A verdadeira doação tem em si, pelo menos de maneira implícita, a possibilidade de criar relação, ao contrário do piro mercado que gera troca. A doação é um gesto tem sentido no interior de uma experiência de relação.

Isto não significa absolutamente que o compartilhamento geral e generalizado seja errado. É porém importante compreender que a lógica cristã é algo a mais. A lógica de doação que se desenvolve na internet conduz ao compartilhamento, à solidariedade, à cooperação, nas quais a generosidade pode permanecer anônima. A lógica da doação como ‘graça’, ao contrário, insiste em uma relação pessoal, sem a qual não se pode existir.

Eis então a vocação do jovem católico no tempo de transformação da experiência de doação: é a vocação a viver a Rede do lugar de ‘conexão’ ao lugar de ‘comunhão’. O risco destes tempos é de confundir os dois termos: a conexão não produz automaticamente comunhão. Ser conectado não significa estar em uma relação. A conexão por si só não basta para fazer da Rede um lugar de compartilhamento plenamente humano.

De outra parte, o ‘coração anseia a um mundo no qual reine o amor, onde os dons sejam compartilhados’, escreveu Bento XVI na sua Mensagem pela Jornada das Comunicações de 2009. Então a Rede pode ser verdadeiramente um ambiente privilegiado no qual esta exigência profundamente humana pode tomar forma.

5. Capacidade de testemunhar

A lógica das redes sociais, em seu melhor significado, vai exatamente nessa direção. A sociedade digital não é mais imaginável e compreensível somente através de seus conteúdos. Não há somente as coisas, mas as pessoas. Há acima de tudo as relações: a troca de conteúdos que está no interior das relações entre pessoas. A base relacional do conhecimento em Rede é radical.

Se entende bem, então, o quanto seja importante a categoria e a prática do testemunho. É este um aspecto determinante. Hoje o homem da rede confia nas opiniões em forma de testemunho. Façamos um exemplo: se hoje quero comprar um livro ou ter uma opinião sobre sua validade, vou a uma rede social de livros (Anobii, Goodreads, LibrayThing) ou a uma livraria online e leio as opiniões de outros leitores.

Estes têm mais o detalhe do testemunho que dos clássicos comentários: frequentemente apelam ao processo de leitura pessoal e às reações que suscitam. E o mesmo acontece se quero comprar uma aplicação ou uma música no iTunes. Existem também os testemunhos sobre a reputação das pessoas caso esses sejam os vendedores de objetos como o eBay. Mas os exemplos podem se multiplicar: trata-se sempre daqueles user generated content que fizeram a ‘sorte’ e deram o significado às redes sociais. O ‘testemunho’ deve ser considerado, desse modo, no interior da lógica de redes participativas, um ‘conteúdo gerado pelo usuário’.

A lógica das redes sociais nos faz compreender melhor a primeira vista que o conteúdo compartilhado é sempre estritamente ligado à pessoa que o oferece. Não há, portanto, nessas redes nenhuma informação neutra: o homem é sempre envolvido diretamente naquilo que comunica. Cada um de nós é chamado a assumir as próprias responsabilidades e a própria tarefa na consciência.

Neste sentido, o cristão que vive imerso nas redes sociais é chamado a uma autenticidade de vida muito desafiante: ela toca diretamente o valor da sua capacidade de comunicação. De fato, o Papa escreveu na sua Mensagem pela Jornada das Comunicações de 2011 que “quando as pessoas trocam informações, estão já compartilhando a si mesmas, as suas visões do mundo, suas esperanças, e seus ideais”. A tecnologia das informações, contribuindo para criar uma rede de conexões, parece então ligar mais estritamente a amizade e o conhecimento, empurrando os homens a serem testemunhas daquilo sobre o qual baseam sua própria existência.

O testemunho está se tornando a verdadeira forma privilegiada de comunicação no ambiente digital. Direi mais decisamente: hoje comunicar significa testemunhar.

Desse modo, um anúncio do Evangelho que não passe pela autenticidade de uma vida quotidiana pessoal e compartilhada resultaria, hoje mais do que nunca, em uma mesagem expressa em um código compreensível talvez com a mente, mas não com o coração. A fé, então, não só se ‘transmite’, mas acima de tudo pode ser suscitada no encontro pessoal, nas relações autênticas.

Evangelizar não significa absolutamente fazer ‘propaganda’ do evangelho. Não significa ‘transmitir’ mensagens de fé. O evangelho não é uma mensagem entre tantas outras. Logo, evangelizar não significa ‘inserir conteúdos declaradamente religiosos’ no Facebook e Twitter. E também, a verdade do Evangelho não traz seu valor da sua ‘popularidade’ ou da quantidade de atenção que recebe.

Testemunhar, portanto, significa antes de tudo viver uma vida normal alimentada da fé em tudo: visões de mundo, escolhas, orientações, gostos, e então também o modo de comunicar, de construir amizades e de se relacionar fora e dentro da Rede. E por consequência também, como escreveu o Papa, ‘testemunhar com coerência, no próprio perfil digital e no modo de comunicar escolhas, preferências, juízos que sejam profundamente coerente com o Evangelho, também quando disso não se fala de forma explícita’.

A Igreja em Rede não é chamada, desse modo, a uma ‘emissão’ de conteúdos religiosos, mas a um ‘compartilhamento’ do Evangelho em uma socidedade complexa. Derrick De Kerckhove, reconhecido especialista no mundo das mídias sociais, cunhou a expressão ‘auréola eletrônica’ para indicar a rede de conexões comunicativas que conectam a pessoa ao mundo e a outras pessoas. É antes de tudo com esse tipo de auréola, então, que ‘nos novos contextos e com as novas formas de expressão’ o homem de hoje é chamado a ‘oferecer uma resposta a qualquer pergunta enraizada na esperança que há nele’ (1Pt 3, 15)

6. Capacidade de pensar junto

Este compartilhamento pode ser bem mais radical que uma simples ‘troca’. Na verdade, a Internet comporta a conexão e o compartilhamento de recursos, tempo, conteúdos, ideias…

O exemplo mais clássico é aquele do Wikipedia. Além de outras considerações, é o fruto da convergêcia de várias pessoas conectadas entre elas pelo planeta que pensam e escrevem. Todos escrevem uma mesma voz de enciclopédia, contribuindo a um único trabalho comum. É como se ‘pensassem’ juntas.

A fiação das redes está dando vida a uma força emergente e vital, chegando a juntar as pessoas e fazê-las pensar juntas independentes do tempo e do espaço. Hoje se pensa e se conhece o mundo não só da maneira tradicional de leitura ou troca em um contexto restrito de relações (docência, grupos de estudo,…), mas realizando uma vasta conexão entre inteligências que trabalham em rede. Podemos dizer que a inteligência é distribuída aonde quer que esteja a humanidade, e essa hoje pode ser facilmente interconectada. A rede destas conciências da vida a uma forma de ‘inteligência conectada’.

As mídias sociais, portanto, não somente ajudam a expressar aos outros o próprio pensamento, mas ajudam também a pensar junto aos outros, a elaborar reflexões, ideias, visões da realidade. A comunicação hoje ajuda o comunicador a pensar junto a uma comunidade. Mas diria mais: pode ajudar o comunicador a pensar junto às pessoas às quais se endereça graças a possibilidade de receber continuamente feedback e comentários. A comunicação é sempre um gesto que conecta as pessoas entre elas.

 7. Capacidade de estar junto

O aspecto que poderia aparecer menos positivo desta possibilidade ofertada pela rede é o fato do encontro físico, em ‘carne e osso’ entre as pessoas não é mais indispensável como já foi. A rede leva o homem para fora de seu espaço físico real para lhe permitir relações humanas deslocalizadas. Como disse: é agora uma experiência comum estar em contato com pessoas caras que estejam longe de vários modos (via email, facebook, skype, etc…). Parece portanto que o encontro sensível entre pessoas na sua dimensão físico, aind que importante, está se tornando não indispensável.

E contudo, exatamente graças a internet, está verificando-se um fenômeno singular inverso que tende exatamente a ‘furar’ a rede para permitir o encontro ‘face a face’ entre pessoas.

Pensemos em uma grande cidade onde se encontrar é sempre mais difícil pelo empenho e pelas distâncias. Uma vez andar pela rua significou ser reconhecido. Hoje as ruas de uma grande cidade são, ao invés, o lugar do anonimato. Como fazer para ter alguma chance a mais para se encontrar com os amigos que se conhecem e que vivem uma vida comprometida e ocupada nos deslocamentos de um lugar ao outro? Eis que assim é recuperada a função social da ‘geolocalização’ permitida pelo smartphone. Em 2009 nasceram os aplicativos Foursquare e Gowalla. Em 2010 também o Facebook adicionou a função places.

Esses aplicativos se baseam sobre um princípio: quando você está em um lugar com o celular faz o check in, isto é, assinala a sua presença que fica visível a aqueles que são seus ‘amigos’ e que você permitiu que vissem sua posição sobre um mapa. Neste modo, o mundo virtual e o mundo físico se conectam e, potencialmente, a ‘conexão’ pode se tornar ‘encontro’. Fazer check in significa assinalar a própria presença em um lugar e, substancialmente, dizer a própria disponibilidade a um encontro, um café juntos, ou somente uma saudação. Google Latitude depois radicaliza o conceito permitindo ao dono de um celular de ser constantemente localizado e ter sua rota seguida pelas pessoas habilitadas.

Em um mundo no qual é sempre mais difícil, por casa das distâncias e dos ritmos de trabalho, encontrar-se com ‘caras conhecidas’, na rede das próprias amizades, em um único lugar, procura-se tirar os fios dessa rede graças a um aplicativo que me diz se tenho a oportunidade de poder encontrar algum amigo nas paradas. A ‘praça’ passa do território ao próprio smartphone. Isto nos diz quem podemos encontrar e onde, permitindo-me ‘furar’ o anonimato do ambiente que nos circunda.

Uma ideia de Igreja ‘local’ deverá mais cedo ou mais tarde tomar em conta esta visão das relações. A Igreja ‘local’ tenderá a ser uma igreja ‘geolocalizada’ na qual a pertença será ligada sempre mais ao próprio network de referências que se move no território? Criar ocasiões de oração comum se aproximará ao check in em um lugar de culto, uma igreja? A geolocalização compartilhada poderia ser um fator que mais cedo ou mais tarde influenciará sobre o modo de ‘fazer comunidade’ eclesial, como do resto, ainda que de maneira diferente, tiveram os meios de transporte tradicionais.

***

Muitas coisas ainda podemos dizer, Estou convencido que seja chegado o momento de ter coragem de pensar de modo mais profundo, como tivemos em outras épocas, a relação entre a fé, a vida da Igreja e as mudanças que o homem está vivendo. Creio que tenhamos chegado ao momento que eu chamo de ‘cyberteologia’, isto é, a tentativa de compreender a fé nos tempos nos quais a Rede está transformando o nosso modo de pensar, conhecer, comunicar e viver.